ponte estaiada

Passagem

Crônica

Estou partindo a pé novamente para casa. Atravesso a passarela  da Ponte da Passagem enquanto cai a tarde de verão sob o céu da Grande Vitória. Os últimos raios batem nas águas e destacam as hastes da ponte em meio ao azul do céu. Esse fragmento de tempo, o crepúsculo, conquista olhares e pensamentos, despertando as mentes da monotonia para vislumbrar o fim do dia. Eis que um jovem, correndo, se aproxima da passarela. Ele diminui o ritmo e agora caminha lentamente com o celular nas mãos. O fim de tarde é rapidamente enquadrado em uma foto e ele  logo volta a correr. Uma pena, pois capturar o que há de melhor da vida exige contemplação e uma boa dose de paciência.

O olhar se lança para além dos limites da ponte. O horizonte é diverso e abrange altos prédios; pequenos imóveis às margens do canal; bares; morros e comunidades; pescadores empoleirados em um deque improvisado; um barco escondido entre as estruturas da ponte; ratos que correm em meios as pedras do leito do rio; jet skis deslizando pelas águas; o vai e vem dos veículos na ponte ao lado; os ciclistas e pedestres que cruzam o meu caminho e o Mestre Álvaro ao fundo, mas nunca despercebido.

Há algo de errado na conduta efêmera da minha geração, que nada conserva. Tudo se perde e se esquece: as palavras, os olhares, o sentido único da vida; e guarda-se o vazio individualista da própria autorrealização. Já passei por muitas histórias e pessoas com esse mesmo espírito ansioso. O pouco que capturei desses dias são recordações sem contextos, sem enredos ou diálogos. Mas eu desejo permanecer. Escolho ficar e criar memórias. Quero ter o que guardar dessa minha breve passagem.

Ainda em cima da ponte, vejo uma menina curiosa pedindo colo com muita persuasão. Ela interrompe os passos do pai e implora com certo ar de barganha. O pai para e percebe, na necessidade da filha, a oportunidade de tornar o trajeto pela ponte mais feliz. Ele sorri e ergue a filha sobre os ombros, que logo aponta para um avião que cruza o céu em direção ao aeroporto. O rosto da menina se ilumina e esboça um sorriso genuíno de satisfação. Tem um aspecto belo no ato de parar e esperar, olhar ao redor e notar a própria pequenez diante do mundo. As crianças se encantam com essa proporção que é tão clara e evidente para elas.

Meu percurso já está se prolongando por muito tempo. É preciso me despedir desse cenário e preservar os seus vestígios no coração. Espero que alguém também tenha me guardado na memória. Mas quem realmente sabe que está por aqui temporariamente para se preocupar com isso? Mais difícil ainda é perceber que as vias que percorremos conduzem nossas histórias a um final definitivo, pois estamos apenas de passagem.


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